Um pequeno de 6 anos ia perder a sua mãe.
Escreveu-lhe uma carta, fez-lhe um desenho estupendo e colocou tudo num envelope cuidadosamente decorado. Tudo era a cara da sua mãe, menos aquela partida anunciada.
Aos 6 anos é difícil conceber que o nosso mundo, tal como o conhecemos, vai ruir.
Conversámos várias vezes. Todas conversas boas. Todas conversas difíceis.
Dessas conversas nasceu "Uma Escadinha até ao Céu".
Escrevi esta história de um fôlego só, num caderno quadriculado. Gosto de escrever em folhas aos quadrados; impõem limites.
Guardei-a.
Disse de mim para mim, muitas vezes, que um dia a publicaria.
Ao longo destes nove anos, muito mundo mudou.
O meu não foi diferente.
Em 2026, ganhei coragem e uma história num caderno aos quadrados transformou-se num livro.
Coincidência das coincidências, o livro foi publicado no mês de aniversário daquele pequeno. E, no mês em que a sua mãe faria anos, tive a grata oportunidade de realizar uma sessão de autógrafos na Feira do Livro de Lisboa.
Enquanto vivia aquela experiência incrível, pensei muitas vezes no caminho percorrido por esta "Escadinha".
Nem todas as histórias são de encantar. Esta, apesar de linda, não termina com um "felizes para sempre". E talvez seja precisamente por isso que faça sentido.
Ao longo dos anos, enquanto psicóloga, aprendi que o luto não é uma doença para a qual exista cura nem um problema que possa ser resolvido. É um processo de adaptação a uma ausência significativa.
Quando falamos de crianças, esta ideia torna-se ainda mais importante.
Muitas vezes os adultos acreditam que para as crianças o melhor é serem afastadas da morte, para que não sofram. A realidade é mais complexa. As crianças compreendem a perda de forma diferente, regressam a ela em momentos distintos do desenvolvimento e, muitas vezes, elaboram-na aos poucos, à medida que vão adquirindo recursos para lhe atribuir significado.
O objetivo nunca é esquecer quem morreu. Não é deixar de sentir saudades. Não é apagar a dor.
O objetivo é conseguir continuar a viver, integrando a ausência de alguém que continua a ocupar um lugar importante na nossa história.
E foi por isso que a sessão de autógrafos teve um significado tão especial para mim. Porque me permitiu ver uma história que começou numa conversa difícil encontrar novos leitores, novas famílias e, espero, novas formas de falar sobre temas que tantas vezes evitamos.
Pozinhos de perlim pim pim...
Não.
Esta história também não chegou ao fim.
P.S.
Preciso mesmo de agradecer a todos os que estiveram presentes na Feira do Livro de Lisboa.
Aos que passaram para dar um abraço, aos que levaram um exemplar para casa e aos que fizeram questão de partilhar aquele momento comigo.
Fizeram-me sentir verdadeiramente importante.
E isso é algo que dificilmente esquecerei.




