O típico mês das férias está mesmo, mesmo a terminar, mas há quem ainda queime os últimos cartuchos.
Em miúda fazia praia sempre de manhã. Creio mesmo que cheguei a pensar que a praia, de tarde, fechava!
À medida que fui crescendo, percebi que gosto bem mais da praia à tarde. Durante algum tempo achei que era só para ser diferente, mas depois percebi que não.
De manhã, com o avançar das horas, vai ficando cada vez mais difícil estar na praia. À tarde é precisamente ao contrário: à medida que o tempo passa, vai ficando cada vez melhor. E a sensação de fechar a praia é estupenda!
Horários à parte, o que eu gosto mesmo é de praia.
Gosto de chegar, instalar-me e ficar. Sem grandes planos. Ler, dormir, conversar, ir à água, jogar, observar as pessoas, voltar a ler. E é talvez por gostar tanto de ficar que comecei a reparar numa coisa curiosa.
À hora de almoço, a praia fica mais ou menos vazia. Ou melhor: as pessoas vão embora. As coisas ficam.
Ficam os chapéus de sol abertos ou fechados, as cadeiras estrategicamente colocadas, as toalhas, os para-ventos. Tudo para garantir que ninguém se engana: este lugar tem dono.
As pessoas foram almoçar, mas deixaram o lugar marcado para depois.
E foi a olhar para uma praia quase vazia, mas curiosamente cheia, que me ocorreu: levamos para as férias a mesma necessidade de controlo.
Mudamos de lugar, mudamos de roupa, mudamos de horários. Mas não mudamos de modo de funcionamento. Mantemos o modo piloto automático! Passamos boa parte do ano a suspirar pelas férias. Precisamos de descansar, de mudar de ritmo, de não ter horários, de interromper por uns dias aquilo que fazemos todos os dias. E, no entanto, quando finalmente temos a oportunidade de parar, e quebrar o quotidiano ficamos presos ao mesmo modo de pensar e agir - estar já na coisa seguinte sem saborear a coisa de agora.
O corpo está de férias, mas uma parte de nós continua lá, de guarda. Tal como a cadeira que ficou na praia.
Enquanto almoçamos, já estamos a garantir o lugar onde queremos estar depois do almoço.
Enquanto descansamos, pensamos no que temos de fazer quando regressarmos.
Enquanto estamos numa conversa, espreitamos o telefone para ver o que aconteceu entretanto.
Desligar implica alguma confiança e treino! Descansar é mais complexo do que simplesmente não trabalhar. Para descansar verdadeiramente é preciso estar disposto a abdicar do controlo.
Aceitar que, enquanto não estamos, as coisas continuam a
acontecer.
Que alguém pode ocupar um espaço que habitualmente é nosso.
Que alguma coisa pode não ficar exatamente como deixaríamos. Que podemos não
saber imediatamente o que aconteceu. Que pode haver um problema e que, durante
algumas horas, não seremos nós a resolvê-lo.
E isto nem sempre é confortável.
Talvez por isso haja pessoas que chegam às férias exaustas e regressam delas sem terem verdadeiramente descansado. Não porque não tenham parado, mas porque parar o corpo não significa necessariamente parar por dentro.
Talvez descansar seja ficar onde estamos, enquanto lá estamos.
Almoçar quando estamos a almoçar. Estar na praia quando estamos na praia. Não reservar mentalmente a tarde enquanto ainda estamos a viver a manhã. E confiar que, quando voltarmos, logo veremos onde estender a toalha. Pode até não ser exatamente no mesmo sítio.
Talvez isso também faça parte das férias.




