31 agosto 2026

reservado

O típico mês das férias está mesmo, mesmo a terminar, mas há quem ainda queime os últimos cartuchos.

Em miúda fazia praia sempre de manhã. Creio mesmo que cheguei a pensar que a praia, de tarde, fechava!

À medida que fui crescendo, percebi que gosto bem mais da praia à tarde. Durante algum tempo achei que era só para ser diferente, mas depois percebi que não.

De manhã, com o avançar das horas, vai ficando cada vez mais difícil estar na praia. À tarde é precisamente ao contrário: à medida que o tempo passa, vai ficando cada vez melhor. E a sensação de fechar a praia é estupenda!

Horários à parte, o que eu gosto mesmo é de praia.

Gosto de chegar, instalar-me e ficar. Sem grandes planos. Ler, dormir, conversar, ir à água, jogar, observar as pessoas, voltar a ler. E é talvez por gostar tanto de ficar que comecei a reparar numa coisa curiosa.

À hora de almoço, a praia fica mais ou menos vazia. Ou melhor: as pessoas vão embora. As coisas ficam.

Ficam os chapéus de sol abertos ou fechados, as cadeiras estrategicamente colocadas, as toalhas, os para-ventos. Tudo para garantir que ninguém se engana: este lugar tem dono.

As pessoas foram almoçar, mas deixaram o lugar marcado para depois.

E foi a olhar para uma praia quase vazia, mas curiosamente cheia, que me ocorreu: levamos para as férias a mesma necessidade de controlo.

Mudamos de lugar, mudamos de roupa, mudamos de horários. Mas não mudamos de modo de funcionamento. Mantemos o modo piloto automático! Passamos boa parte do ano a suspirar pelas férias. Precisamos de descansar, de mudar de ritmo, de não ter horários, de interromper por uns dias aquilo que fazemos todos os dias. E, no entanto, quando finalmente temos a oportunidade de parar, e quebrar o quotidiano ficamos presos ao mesmo modo de pensar e agir - estar já na coisa seguinte sem saborear a coisa de agora. 

O corpo está de férias, mas uma parte de nós continua lá, de guarda. Tal como a cadeira que ficou na praia.

Enquanto almoçamos, já estamos a garantir o lugar onde queremos estar depois do almoço.

Enquanto descansamos, pensamos no que temos de fazer quando regressarmos.

Enquanto estamos numa conversa, espreitamos o telefone para ver o que aconteceu entretanto.

Desligar implica alguma confiança e treino! Descansar é mais complexo do que simplesmente não trabalhar. Para descansar verdadeiramente é preciso estar disposto a abdicar do controlo.

Aceitar que, enquanto não estamos, as coisas continuam a acontecer.

Que alguém pode ocupar um espaço que habitualmente é nosso. Que alguma coisa pode não ficar exatamente como deixaríamos. Que podemos não saber imediatamente o que aconteceu. Que pode haver um problema e que, durante algumas horas, não seremos nós a resolvê-lo.

E isto nem sempre é confortável.

Talvez por isso haja pessoas que chegam às férias exaustas e regressam delas sem terem verdadeiramente descansado. Não porque não tenham parado, mas porque parar o corpo não significa necessariamente parar por dentro.

Talvez descansar seja ficar onde estamos, enquanto lá estamos.

Almoçar quando estamos a almoçar. Estar na praia quando estamos na praia. Não reservar mentalmente a tarde enquanto ainda estamos a viver a manhã. E confiar que, quando voltarmos, logo veremos onde estender a toalha. Pode até não ser exatamente no mesmo sítio.

Talvez isso também faça parte das férias.

03 julho 2026

joanamelodasilva.pt

 Há sensivelmente dois anos a minha vida mudou. A bem da verdade, todo o ano de 2024 aconteceu em mudança.

Nesse ido ano de 2024, em meados de janeiro percebi que estava na altura de rumar a outras paragens. Pensei, andei. Em abril comecei a concretizar e, em outubro, a coisa deu-se.

Eu sou do último quarto do século XX. Ainda assim, século XX. Por isso, tudo o que ultrapasse uma caneta, uma folha de papel e alguns avivadores é avanço tecnológico!

Nesta mudança percebi que a presença é sobretudo digital e que eu continuo a falar de novas tecnologias, mas muitas vezes estou a referir-me a coisas que já deixaram de ser novas há muito tempo. Instalei-me no Facebook, no Instagram e no LinkedIn — ainda não me consegui aventurar no TikTok —, reconheço a dificuldade em encontrar a minha linguagem nestes meios, mas continuo à procura e, passinho a passinho, acho que a vou encontrando.

Com o passar do tempo, as ideias foram ficando mais claras e começou a ser mais fácil traçar um caminho.

Ainda em 2024 fiquei com o domínio joanamelodasilva.pt para mim. Não fazia ideia do que iria fazer com ele, mas tinha de ser meu. E foi. E é!

Em meados de 2026 agarrei-o. O joanamelodasilva.pt ia finalmente ganhar forma. Ia transformar-se num site.

É curioso pensar que, durante tanto tempo, trabalhei apenas com pessoas e, de repente, dei por mim a aprender sobre domínios, alojamentos, conheci o WordPress, formulários, DNS, SMTP... palavras que, até então, pertenciam a um universo completamente diferente do meu.

Precisava de dar uso ao joanamelodasilva.pt, de instalar o site e, mais importante do que isso, de lhe dar um nome. Eu preciso de nomes para as coisas ganharem significado. Assim nasceu o Sítio de Ideias. Um lugar onde pudesse reunir aquilo que estou a construir: a prática clínica, os livros, este blogue, o podcast que rebentará em breve (depois do Audacity, o WordPress é para meninos!) e tudo o que a minha imaginação conseguir criar.

Esta é portanto mais uma etapa nesta mudança. Mais uma forma de tornar visível aquilo que faço todos os dias.

Aqui fica o convite para uma visita.

Encontramo-nos por lá. Ou por aqui. Porque agora de lá é muito fácil chegar aqui. E, para chegar lá, basta escrever joanamelodasilva.pt.

23 junho 2026

pozinhos de perlim, pim, pim...

Foi em 2017, mas lembro-me como se fosse hoje.

Um pequeno de 6 anos ia perder a sua mãe.

Escreveu-lhe uma carta, fez-lhe um desenho estupendo e colocou tudo num envelope cuidadosamente decorado. Tudo era a cara da sua mãe, menos aquela partida anunciada.

Aos 6 anos é difícil conceber que o nosso mundo, tal como o conhecemos, vai ruir.

Conversámos várias vezes. Todas conversas boas. Todas conversas difíceis.

Dessas conversas nasceu "Uma Escadinha até ao Céu".

Escrevi esta história de um fôlego só, num caderno quadriculado. Gosto de escrever em folhas aos quadrados; impõem limites.

Guardei-a.

Disse de mim para mim, muitas vezes, que um dia a publicaria.

Ao longo destes nove anos, muito mundo mudou.

O meu não foi diferente.

Em 2026, ganhei coragem e uma história num caderno aos quadrados transformou-se num livro.

Coincidência das coincidências, o livro foi publicado no mês de aniversário daquele pequeno. E, no mês em que a sua mãe faria anos, tive a grata oportunidade de realizar uma sessão de autógrafos na Feira do Livro de Lisboa.

Enquanto vivia aquela experiência incrível, pensei muitas vezes no caminho percorrido por esta "Escadinha".

Nem todas as histórias são de encantar. Esta, apesar de linda, não termina com um "felizes para sempre". E talvez seja precisamente por isso que faça sentido.

Ao longo dos anos, enquanto psicóloga, aprendi que o luto não é uma doença para a qual exista cura nem um problema que possa ser resolvido. É um processo de adaptação a uma ausência significativa.

Quando falamos de crianças, esta ideia torna-se ainda mais importante.

Muitas vezes os adultos acreditam que para as crianças o melhor é serem afastadas da morte, para que não sofram. A realidade é mais complexa. As crianças compreendem a perda de forma diferente, regressam a ela em momentos distintos do desenvolvimento e, muitas vezes, elaboram-na aos poucos, à medida que vão adquirindo recursos para lhe atribuir significado.

O objetivo nunca é esquecer quem morreu. Não é deixar de sentir saudades. Não é apagar a dor.

O objetivo é conseguir continuar a viver, integrando a ausência de alguém que continua a ocupar um lugar importante na nossa história.

E foi por isso que a sessão de autógrafos teve um significado tão especial para mim. Porque me permitiu ver uma história que começou numa conversa difícil encontrar novos leitores, novas famílias e, espero, novas formas de falar sobre temas que tantas vezes evitamos.

Pozinhos de perlim pim pim...

Não.

Esta história também não chegou ao fim.

P.S.

Preciso mesmo de agradecer a todos os que estiveram presentes na Feira do Livro de Lisboa.

Aos que passaram para dar um abraço, aos que levaram um exemplar para casa e aos que fizeram questão de partilhar aquele momento comigo.

Fizeram-me sentir verdadeiramente importante.

E isso é algo que dificilmente esquecerei.


13 junho 2026

pelos vistos

Há um ditado antigo, cuja origem desconheço, que diz que, para deixar uma marca no mundo, devemos plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro.

No 7.º ano, plantei uma árvore. A escola era a estrear e, no dia 21 de março, Dia da Árvore, todas as turmas saíram das salas para ajudar a dar vida aos canteiros. Cada um de nós plantou qualquer coisa. Eu também. Assim, plantar uma árvore ✅

Mais à frente também cumpri a parte do filho. Acabei por ter dois, mas creio que o ditado não se importará com o excesso de zelo. Por isso, filho ✅.

Há uns anos escrevi uma história; ela é minha, mas o livro não. Agora, este é todo meu - da história ao livro - e a sensação é incrível! É todo meu: da primeira à última palavra; da ideia na minha cabeça às páginas que seguro na mão. 

Então, livro 

Missão cumprida!

Já seria suficientemente inacreditável abrir a Wook ou o site da Bertrand e encontrá-lo lá. Mas a verdade é que escrever um livro tem qualquer coisa de mágico. Durante muito tempo, esta história foi apenas minha: uma ideia, algumas palavras, páginas escritas e reescritas, personagens que ganharam forma e uma escadinha que existia apenas na minha cabeça. Aos poucos, tudo isso se transformou num livro que agora pode morar nas mãos de outras pessoas.

Escrever é uma aventura por si só. Escrever sobre temas difíceis é outra coisa. São temas de que precisamos de falar, mas que raramente escolhemos para uma história antes de dormir. Afinal, quem procura um livro sobre temas difíceis quando há tantos sobre princesas, dragões e unicórnios?

É, se calhar, por isso mesmo que vale a pena escrevê-los.

E, de repente, dou por mim a acrescentar mais uma linha a esta história: no domingo, dia 14, estarei na Feira do Livro de Lisboa para uma sessão de autógrafos. Escrito assim, continua a parecer-me uma frase improvável.

A miúda que plantou uma árvore no 7.º ano não fazia a menor ideia de que um dia haveria de cumprir este ditado.

11 junho 2026

é preciso levar o brincar muito a sério

Lembro-me bem de ser miúda e brincar aos escritórios. Bem... e de fazer de Maria de Deus — para isso bastava calçar os sapatos de salto largo da minha mãe - e transformar as escadas entre a porta da rua e a cozinha na carrinha verde conduzida pelo Sr. Manuel. Também fazia de Glorinha, a gerir as tropas entre o refeitório e o recreio, ou de Micanda, a dar aulas à 2.ª classe com uma mestria que eu julgava ancestral.

Quando brincava aos escritórios, os problemas dos clientes acumulavam-se na secretária da Maria Manuela. Era assim que me chamava. Estava a habituar-me ao meu futuro nome. Eu achava que, quando chegasse a crescida, teria de mudar de nome. É que não conhecia adulto nenhum que se chamasse como os meus colegas ou amigas! Tinha, por isso, decidido que, quando fosse crescida, passaria a chamar-me Maria Manuela e que toda a gente me trataria por Nela.

Brincar tinha tanto de extraordinário como de natural. Era natural o tédio. Era natural esperar. Era natural dividir. Extraordinário era imaginar o que isto ou aquilo poderia ser. Extraordinário era brincar uma e outra vez à mesma coisa, sem hora para acabar e acrescentando sempre mais vida ao dia anterior.

Brincava-se sozinho ou com os da mesma idade e isso era incrivelmente banal. Não havia datas para assinalar a importância do brincar, nem especialistas a explicar os seus benefícios. Brincava-se porque sim. E porque a infância, sem que ninguém lhe chamasse desenvolvimento emocional, fazia o seu trabalho. 

Nenhum adulto organizava a brincadeira. Nenhum adulto distribuía papéis. Dificilmente um adulto resolvia os conflitos. Se queríamos continuar a brincar, tínhamos de nos entender. Às vezes corria bem, outras vezes acabávamos amuados, mas no dia seguinte voltávamos a tentar.

Hoje penso muitas vezes que foi ali que aprendemos uma boa parte daquilo que mais tarde se pede aos adultos: esperar pela vez, lidar com a frustração, negociar, imaginar soluções, reparar zangas e encontrar um lugar no grupo. Mas, na altura, não achávamos que estivéssemos a aprender nada. Estávamos apenas a brincar.

Talvez seja precisamente essa a magia do brincar. Enquanto os pequenos acreditam que estão apenas a construir castelos, a dar aulas ou a tomar conta dos meninos da volta da carrinha verde entre a porta da rua e a cozinha, estão afinal a construir-se a si próprios.

É no brincar que os pequenos experimentam ser grandes quando ainda são pequenos. Que ensaiam papéis, inventam soluções, testam limites, aprendem a perder e a ganhar, a mandar e a obedecer, a ficarem sozinhos e a fazerem parte de um grupo.

O brincar deixa-nos mais do que aprendizagens. Deixa-nos também memórias.

Talvez porque, durante a infância, não exista grande diferença entre viver e aprender. Crescemos enquanto brincamos e, anos mais tarde, acabamos por guardar precisamente esses momentos.

Nenhuma destas memórias foi criada de propósito. Ninguém decidiu que aquele dia haveria de ficar guardado para sempre. Ninguém organizou uma experiência inesquecível. Na altura não eram memórias. Eram apenas dias.

Não porque aqueles dias fossem especiais, mas porque, estávamos inteiramente presentes neles. Não havia preocupação em guardar o momento. Estávamos apenas a vivê-lo.

Hoje parecemos viver um pouco obcecados com a ideia de criar memórias. Procuramos atividades especiais, experiências especiais, momentos especiais. Queremos garantir que as crianças guardam recordações felizes da infância.

Mas as memórias raramente obedecem a esse tipo de planeamento.

As minhas não nasceram de um dia extraordinário. Nasceram de uma sucessão de tardes aparentemente iguais. De brincadeiras repetidas. De pessoas que estavam lá. De tempo que não precisava de ser preenchido.

Talvez porque as memórias mais importantes não sejam aquelas que tentamos fabricar. Talvez sejam aquelas que surgem quando estamos demasiado ocupados a viver para nos preocuparmos em recordá-las.

Hoje existe um Dia Internacional do Brincar. E ainda bem que existe. Talvez porque, entretanto, tenhamos precisado de nos lembrar de uma coisa que antes parecia óbvia: as crianças não precisam que lhes fabriquemos memórias. Precisam de tempo para as viver.

E que, afinal brincar é um assunto muito sério.

reservado