Insights
Um bolgue sobre ciência psicológica e a sua prática
15 maio 2026
14 maio 2026
02 janeiro 2026
resoluções ou a arte de resolver
Chegou 2026!
Todos os anos,
juntamente com as doze passas e a taça de espumante, definem-se resoluções:
desta é que vai ser!
Promete-se mais
exercício, mais compromisso, melhor desempenho. Por norma são tão desejáveis
quanto irrealistas. Não surpreende por isso que, quando chega fevereiro,
grande parte seja já abandonada.
Raramente se pergunta: de onde vêm estas resoluções? São desejos genuínos ou tentativas apressadas de reparar uma sensação de insuficiência? São escolhas conscientes ou exigências herdadas do ritmo social, das redes, da narrativa contemporânea de que parar é falhar?
As resoluções de
Ano Novo frequentemente emergem de um lugar pouco falado: uma espécie de insatisfação
silenciosa. Não porque se seja incapaz ou não se tenha recursos, mas porque se
criou o hábito de medir valor pessoal em produtividade, constância e resultados
observáveis. Assim, o novo ano transforma-se facilmente numa lista de
obrigações emocionais, muitas vezes confundidas com motivação.
Promete-se mais
para fora do que para dentro, promete-se mais para corresponder do que por fazer sentido.
Promete-se demais.
Talvez por isso tantas resoluções falhem. Não por falta de força de vontade, mas por excesso de pressão e de autoexigência. Metas formuladas a partir da necessidade de cumprir expectativas externas, tendem a reforçar ciclos de frustração e culpa, em vez de promover mudança sustentada.
E se, este ano,
a pergunta fosse outra?
Resolver não tem
de significar endurecer. Em muitos casos, resolver implica abrandar. É substituir
metas grandiosas por intenções realistas e reguladoras. É permitir que o ano
comece sem urgência, sem prova, sem espetáculo.
Talvez a
resolução mais difícil e ao mesmo tempo, mais transformadora seja:
ser-se brando.
18 setembro 2025
Sobre bullying
A escola acabou de começar. Ainda cheira a novidade e festa. A escola é um lugar complexo, onde cabem aprendizagens, descobertas, amizades e desafios. É exigente andar na escola, sempre foi e cada vez mais parece ser. Desde o primeiro dia, há a pressão de corresponder às expectativas dos professores, de conquistar o seu olhar de aprovação; e há também a necessidade de ser aceite pelos colegas. Às vezes parece que ser aceite é um sorteio, um golpe de sorte ou de azar. É aqui que, tantas vezes, entra o bullying.
Curiosamente, duas obras,
aparentemente distantes — a série Invisible (Disney+) e o filme de
animação Viver em Grande ( https://www.youtube.com/watch?v=0O5kqfC45Cc ) — trazem em
comum um olhar sensível sobre o que significa não ser aceite, sentir-se
excluído e lutar por um lugar no mundo. Ambas lembram que, muitas vezes, a
maior batalha acontece dentro de nós, quando acreditamos que não pertencemos.
O bullying não é apenas um
conjunto de provocações ou “brincadeiras sem maldade”. É sobretudo sobre medo.
Um medo levado ao limite: intenso, avassalador, difícil até de pôr em palavras.
É uma violência que mina a autoestima, corrói a confiança e deixa marcas
profundas.
Em Invisible, vemos como o isolamento e a dor podem tornar alguém quase
“transparente” aos olhos dos outros. Já em Viver em Grande, a mensagem é
diferente, mas complementar: para ser aceite, não precisamos de nos esconder —
precisamos de coragem para ocupar o nosso espaço no mundo.
Na prática clínica, observa-se ainda outro fenómeno: uma crescente dificuldade social das crianças em lidar com os outros. Muitas têm dificuldade em aceitar críticas, em negociar ou fazer concessões, e tendem a rotular de bullying qualquer situação negativa. Nem tudo é bullying. O que o distingue é o medo que provoca, a forma reiterada como acontece e o facto de ter sempre a mesma vítima. Vulgarizar o termo retira-lhe gravidade e, ao fazê-lo, invisibiliza as situações verdadeiramente graves.
Muitas vítimas de bullying
passam a acreditar que “o problema está nelas”. Desenvolvem ansiedade,
depressão, dificuldades relacionais e, por vezes, carregam esse peso até à vida
adulta. Por isso a intervenção precoce é fundamental: identificar sinais, criar
espaços de escuta e reforçar o valor único de cada criança e jovem.
O bullying não é um “rito de
passagem”. É um problema sério de saúde psicológica e social. Cabe a todos -
pais, professores, colegas e comunidade — transformar a escola (e já agora
também a vida) em espaços seguros, onde cada um possa ser visto, ouvido e
respeitado.
E talvez seja esta a grande
lição que Invisible e Viver em Grande deixam: ninguém deve viver
escondido no medo. Quando há apoio, empatia e coragem, todos podemos — de facto
— viver em grande.
11 setembro 2025
Um Novo Ano Letivo: Coragem, Curiosidade e Confiança
A cada setembro, em cada escola, para cada criança, abre-se um novo capítulo cheio de páginas em branco pronto para ser escrito com novos desafios, bastantes conquistas e alguns falhanços, como convém em todas as aprendizagens.
Este é um momento decisivo
para cada criança: elas sãos as protagonistas desta aventura! Desejo que tenham
coragem para os desafios, curiosidade para aprender e confiança para acreditar
em si mesmas.
Para que esta confiança
exista, não se espera que os pais chorem, nem que precisem de tirar dias de
férias para ficarem em estado de prontidão. Espera-se que os pais mostrem
segurança e firmeza na hora de os acompanharem neste marco. Ir para a escola
aprender é uma coisa fantástica! É todo um mundo que se abre e que fica à
disposição.
A escola é um meio para chegar a algum lado, não um fim em si mesmo.
O que pensarão os filhos se
virem os pais a chorar? Se os sentirem inquietos e nervosos?
Com que confiança olharão
eles para a escola ou para os adultos que lá estão?
Na escola ensaiarão as
primeiras formas de se posicionarem na sociedade a solo: quererão corresponder
ao que o professor espera deles; tentarão ler e decifrar os outros para
definirem alianças e rivalidades; testarão a aceitação e a frustração. É na
escola que experimentam a vida em sociedade na sua plenitude.
Os filhos não são dos pais,
são uma responsabilidade destes, e isso tem muito impacto porque implica
prepará-los bem para os desafios, não os viver por eles ou em vez deles.
Deixo-vos um desafio:
·
Ao deixarem o vosso filho na escola no
primeiro dia, tirem-lhe uma fotografia bem bonita, à porta da escola;
·
Durante o dia e enquanto a criança estiver na
escola, escrevam-lhe uma carta sobre o que desejam para ele nesse ano letivo
(evitem o uso de “tipo” e escrever
palavras com k, a menos que seja kiwi);
·
Juntem-lhe a foto e guardem-na bem!
·
No último dia de aulas repitam a operação
fotografia;
·
No fim do ano letivo, depois da festa e já em
casa, entreguem-lhes a carta e leiam-na em conjunto.
·
Repitam todos os anos
Terão construído ótimas
memórias!
Ao longo do ano, os filhos
vão tropeçar, levantar-se, rir, chorar, aprender e crescer. Cabe aos pais
estarem presentes como porto seguro — firmes, mas com espaço para que sejam os
miúdos, os protagonistas da sua própria história.
Que este ano letivo seja
feito de aprendizagens, amizades e muitas conquistas!

