15 maio 2026

família: o primeiro mapa


Era 1993 e a ONU decidiu que 1994 seria o ano da FAMÍLIA.
Se bem pensou, melhor o fez e definiu que o dia 15 de maio passaria a celebrar esta unidade incrível a partir da qual tudo avança.

É a partir da família que nos construímos e desenhamos o mapa do nosso caminho.

Primeiro quase sem dar por isso. Nas rotinas repetidas, nas histórias contadas à mesa, nas expressões que copiamos, nos medos que herdamos e nas formas de amar que observamos.

A família é o primeiro lugar onde aprendemos quem somos. É o primeiro espelho, o primeiro porto de abrigo e, muitas vezes, o primeiro desafio.

Nem sempre, porém, é o lugar seguro que gostaríamos que fosse. Há famílias que acolhem e protegem, mas também há famílias que falham, que desiludem, que deixam marcas difíceis de compreender e ainda mais difíceis de ultrapassar. Há silêncios que magoam, ausências que pesam e palavras que permanecem muito depois de terem sido ditas.

E, ainda assim, mesmo quando é fonte de sofrimento, a família continua a ocupar um lugar central na história de cada pessoa. Não porque determine para sempre quem somos, mas porque é a partir dela que começamos a construir a nossa forma de estar no mundo — às vezes seguindo os seus exemplos, outras vezes procurando caminhos diferentes.

Mesmo quando a vida nos leva para longe, há qualquer coisa da família que continua a viajar connosco. Um gesto. Uma frase. Um valor. Uma memória. Uma forma particular de olhar o mundo.

Há quem celebre a família com gratidão e quem a recorde com saudade. Há também quem a viva com ambivalência, porque nem todas as famílias são lugar de abrigo. Algumas tornam-se fonte de desilusão, de conflito ou de dor.

Talvez uma das tarefas mais complexas da vida seja precisamente esta: encontrar uma forma de honrar a nossa história sem ficarmos prisioneiros dela. Reconhecer aquilo que recebemos, o que nos faltou e o que escolhemos fazer com tudo isso.

Talvez seja por isso que falar de família é falar de todos nós. Das nossas origens, das nossas ligações, das nossas feridas e dos nossos afetos. Das histórias que recebemos e das que escolhemos continuar a escrever.

14 maio 2026

era um Acontecimento, o DIA DA ESPIGA

Desde que me lembro de andar na escola, que havia uma certa quinta-feira cuja manhã era passada no campo a apanhar umas certas coisas, não se podia apanhar qualquer coisa. Havia preceito. Não podiam faltar papoilas (difíceis de manter), espigas, malmequeres, alfazema, flores campestres e umas plantas que tinham menos piada porque eram só folhas verdes. De tarde fazíamos pão sem fermento - ficava mesmo amoroso, pequenino e mais tarde impossível de comer de tão rijo - e juntávamos ao ramo para levar para casa, que ficava todo o ano pendurado na porta da cozinha.

Não tinha uma data definida, não era feriado, não costumava vir nas notícias, mas era um acontecimento. O dia da espiga era um acontecimento.

Entretanto cresci, mudei de escola e o acontecimento deixou de o ser. Achei estranho, mas não perguntei, avancei.


A dada altura, comecei a ver pessoas a venderem uns certos ramos na estação do comboio e em passeios estratégicos. Quando dei por mim, era uma certa quinta-feira. Esta visão levou-me lá atrás, aquele sítio que me tinha também construído.

Já adulta, a dona Olinda levou para minha casa um certo ramo, numa certa quinta-feira. Sorri com a cara toda. Já não me lembrava bem qual o significado de cada coisa, mas conhecia bem a sensação que se me atravessou. Sabia-o eu, e percebeu ela que, ao longo de catorze anos nunca falhou naquela certa quinta-feira - este ano não foi exceção - já não nos ajuda todas as semanas, mas não nos falha.

Só mais tarde percebi que o dia da espiga nunca foi apenas um ramo pendurado na porta da cozinha, nem uma bela desculpa para não ter aulas de português ou matemática. Era um ritual de continuidade. Uma daquelas pequenas tradições silenciosas que ajudam uma criança a sentir que pertence a um lugar, a um tempo e a uma história maior do que ela própria.

As tradições têm esta capacidade rara de transformar gestos simples em memória duradoura. Não se fixam apenas porque são repetidas, mas porque acontecem num contexto de vínculo, previsibilidade e significado partilhado. Muitos anos depois, podemos já não nos lembrar do significado exato de cada flor ou de cada espiga, mas o corpo reconhece imediatamente a sensação de familiaridade, segurança e pertença que lhes estava associada.

Os rituais e tradições funcionam frequentemente como marcadores identitários e afetivos. Ajudam a estruturar a memória autobiográfica, criam continuidade entre gerações e oferecem uma experiência de permanência simbólica. Talvez por isso certas imagens — um ramo na porta, o cheiro da alfazema ou um pequeno pão sem fermento — permaneçam muito para além da infância.

Mal posso esperar pela próxima certa quinta-feira.
Afinal, há tradições que nunca deixam verdadeiramente de morar em nós.

pozinhos de perlim, pim, pim...