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11 junho 2026

é preciso levar o brincar muito a sério

Lembro-me bem de ser miúda e brincar aos escritórios. Bem... e de fazer de Maria de Deus — para isso bastava calçar os sapatos de salto largo da minha mãe - e transformar as escadas entre a porta da rua e a cozinha na carrinha verde conduzida pelo Sr. Manuel. Também fazia de Glorinha, a gerir as tropas entre o refeitório e o recreio, ou de Micanda, a dar aulas à 2.ª classe com uma mestria que eu julgava ancestral.

Quando brincava aos escritórios, os problemas dos clientes acumulavam-se na secretária da Maria Manuela. Era assim que me chamava. Estava a habituar-me ao meu futuro nome. Eu achava que, quando chegasse a crescida, teria de mudar de nome. É que não conhecia adulto nenhum que se chamasse como os meus colegas ou amigas! Tinha, por isso, decidido que, quando fosse crescida, passaria a chamar-me Maria Manuela e que toda a gente me trataria por Nela.

Brincar tinha tanto de extraordinário como de natural. Era natural o tédio. Era natural esperar. Era natural dividir. Extraordinário era imaginar o que isto ou aquilo poderia ser. Extraordinário era brincar uma e outra vez à mesma coisa, sem hora para acabar e acrescentando sempre mais vida ao dia anterior.

Brincava-se sozinho ou com os da mesma idade e isso era incrivelmente banal. Não havia datas para assinalar a importância do brincar, nem especialistas a explicar os seus benefícios. Brincava-se porque sim. E porque a infância, sem que ninguém lhe chamasse desenvolvimento emocional, fazia o seu trabalho. 

Nenhum adulto organizava a brincadeira. Nenhum adulto distribuía papéis. Dificilmente um adulto resolvia os conflitos. Se queríamos continuar a brincar, tínhamos de nos entender. Às vezes corria bem, outras vezes acabávamos amuados, mas no dia seguinte voltávamos a tentar.

Hoje penso muitas vezes que foi ali que aprendemos uma boa parte daquilo que mais tarde se pede aos adultos: esperar pela vez, lidar com a frustração, negociar, imaginar soluções, reparar zangas e encontrar um lugar no grupo. Mas, na altura, não achávamos que estivéssemos a aprender nada. Estávamos apenas a brincar.

Talvez seja precisamente essa a magia do brincar. Enquanto os pequenos acreditam que estão apenas a construir castelos, a dar aulas ou a tomar conta dos meninos da volta da carrinha verde entre a porta da rua e a cozinha, estão afinal a construir-se a si próprios.

É no brincar que os pequenos experimentam ser grandes quando ainda são pequenos. Que ensaiam papéis, inventam soluções, testam limites, aprendem a perder e a ganhar, a mandar e a obedecer, a ficarem sozinhos e a fazerem parte de um grupo.

O brincar deixa-nos mais do que aprendizagens. Deixa-nos também memórias.

Talvez porque, durante a infância, não exista grande diferença entre viver e aprender. Crescemos enquanto brincamos e, anos mais tarde, acabamos por guardar precisamente esses momentos.

Nenhuma destas memórias foi criada de propósito. Ninguém decidiu que aquele dia haveria de ficar guardado para sempre. Ninguém organizou uma experiência inesquecível. Na altura não eram memórias. Eram apenas dias.

Não porque aqueles dias fossem especiais, mas porque, estávamos inteiramente presentes neles. Não havia preocupação em guardar o momento. Estávamos apenas a vivê-lo.

Hoje parecemos viver um pouco obcecados com a ideia de criar memórias. Procuramos atividades especiais, experiências especiais, momentos especiais. Queremos garantir que as crianças guardam recordações felizes da infância.

Mas as memórias raramente obedecem a esse tipo de planeamento.

As minhas não nasceram de um dia extraordinário. Nasceram de uma sucessão de tardes aparentemente iguais. De brincadeiras repetidas. De pessoas que estavam lá. De tempo que não precisava de ser preenchido.

Talvez porque as memórias mais importantes não sejam aquelas que tentamos fabricar. Talvez sejam aquelas que surgem quando estamos demasiado ocupados a viver para nos preocuparmos em recordá-las.

Hoje existe um Dia Internacional do Brincar. E ainda bem que existe. Talvez porque, entretanto, tenhamos precisado de nos lembrar de uma coisa que antes parecia óbvia: as crianças não precisam que lhes fabriquemos memórias. Precisam de tempo para as viver.

E que, afinal brincar é um assunto muito sério.

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