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23 junho 2026

pozinhos de perlim, pim, pim...

Foi em 2017, mas lembro-me como se fosse hoje.

Um pequeno de 6 anos ia perder a sua mãe.

Escreveu-lhe uma carta, fez-lhe um desenho estupendo e colocou tudo num envelope cuidadosamente decorado. Tudo era a cara da sua mãe, menos aquela partida anunciada.

Aos 6 anos é difícil conceber que o nosso mundo, tal como o conhecemos, vai ruir.

Conversámos várias vezes. Todas conversas boas. Todas conversas difíceis.

Dessas conversas nasceu "Uma Escadinha até ao Céu".

Escrevi esta história de um fôlego só, num caderno quadriculado. Gosto de escrever em folhas aos quadrados; impõem limites.

Guardei-a.

Disse de mim para mim, muitas vezes, que um dia a publicaria.

Ao longo destes nove anos, muito mundo mudou.

O meu não foi diferente.

Em 2026, ganhei coragem e uma história num caderno aos quadrados transformou-se num livro.

Coincidência das coincidências, o livro foi publicado no mês de aniversário daquele pequeno. E, no mês em que a sua mãe faria anos, tive a grata oportunidade de realizar uma sessão de autógrafos na Feira do Livro de Lisboa.

Enquanto vivia aquela experiência incrível, pensei muitas vezes no caminho percorrido por esta "Escadinha".

Nem todas as histórias são de encantar. Esta, apesar de linda, não termina com um "felizes para sempre". E talvez seja precisamente por isso que faça sentido.

Ao longo dos anos, enquanto psicóloga, aprendi que o luto não é uma doença para a qual exista cura nem um problema que possa ser resolvido. É um processo de adaptação a uma ausência significativa.

Quando falamos de crianças, esta ideia torna-se ainda mais importante.

Muitas vezes os adultos acreditam que para as crianças o melhor é serem afastadas da morte, para que não sofram. A realidade é mais complexa. As crianças compreendem a perda de forma diferente, regressam a ela em momentos distintos do desenvolvimento e, muitas vezes, elaboram-na aos poucos, à medida que vão adquirindo recursos para lhe atribuir significado.

O objetivo nunca é esquecer quem morreu. Não é deixar de sentir saudades. Não é apagar a dor.

O objetivo é conseguir continuar a viver, integrando a ausência de alguém que continua a ocupar um lugar importante na nossa história.

E foi por isso que a sessão de autógrafos teve um significado tão especial para mim. Porque me permitiu ver uma história que começou numa conversa difícil encontrar novos leitores, novas famílias e, espero, novas formas de falar sobre temas que tantas vezes evitamos.

Pozinhos de perlim pim pim...

Não.

Esta história também não chegou ao fim.

P.S.

Preciso mesmo de agradecer a todos os que estiveram presentes na Feira do Livro de Lisboa.

Aos que passaram para dar um abraço, aos que levaram um exemplar para casa e aos que fizeram questão de partilhar aquele momento comigo.

Fizeram-me sentir verdadeiramente importante.

E isso é algo que dificilmente esquecerei.


13 junho 2026

pelos vistos

Há um ditado antigo, cuja origem desconheço, que diz que, para deixar uma marca no mundo, devemos plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro.

No 7.º ano, plantei uma árvore. A escola era a estrear e, no dia 21 de março, Dia da Árvore, todas as turmas saíram das salas para ajudar a dar vida aos canteiros. Cada um de nós plantou qualquer coisa. Eu também. Assim, plantar uma árvore ✅

Mais à frente também cumpri a parte do filho. Acabei por ter dois, mas creio que o ditado não se importará com o excesso de zelo. Por isso, filho ✅.

Há uns anos escrevi uma história; ela é minha, mas o livro não. Agora, este é todo meu - da história ao livro - e a sensação é incrível! É todo meu: da primeira à última palavra; da ideia na minha cabeça às páginas que seguro na mão. 

Então, livro 

Missão cumprida!

Já seria suficientemente inacreditável abrir a Wook ou o site da Bertrand e encontrá-lo lá. Mas a verdade é que escrever um livro tem qualquer coisa de mágico. Durante muito tempo, esta história foi apenas minha: uma ideia, algumas palavras, páginas escritas e reescritas, personagens que ganharam forma e uma escadinha que existia apenas na minha cabeça. Aos poucos, tudo isso se transformou num livro que agora pode morar nas mãos de outras pessoas.

Escrever é uma aventura por si só. Escrever sobre temas difíceis é outra coisa. São temas de que precisamos de falar, mas que raramente escolhemos para uma história antes de dormir. Afinal, quem procura um livro sobre temas difíceis quando há tantos sobre princesas, dragões e unicórnios?

É, se calhar, por isso mesmo que vale a pena escrevê-los.

E, de repente, dou por mim a acrescentar mais uma linha a esta história: no domingo, dia 14, estarei na Feira do Livro de Lisboa para uma sessão de autógrafos. Escrito assim, continua a parecer-me uma frase improvável.

A miúda que plantou uma árvore no 7.º ano não fazia a menor ideia de que um dia haveria de cumprir este ditado.

uma escola que os pode levar mais longe