20 de outubro | Dia de Combate ao Bullying
Lembro-me de andar na escola e de, em todos os grupos, haver o Caixa de Óculos (apesar de vários usarem óculos), o Badocha, o Dentolas, o Marrão, o Orelhas de Abano, o Chorinhas, enfim…
Certo é que o Caixa de Óculos tinha amigos, o Badocha era
convidado para as festas de anos, o Dentolas nunca tinha problemas em encontrar
um grupo para os trabalhos e por aí fora.
A mim acontecia-me ser sempre a última a ser escolhida nas
aulas de Educação Física. Verdade seja dita, nunca tive grande jeito com as
mãos e muito menos com os pés. Se eu gostava? Odiava, mas era a vida! Em pliés
ninguém me ganhava, mas isso não fazia parte do programa.
Andar na escola sempre foi difícil. É lá que se treina toda
a organização social fora da proteção familiar.
Dito isto, discutir com um colega, sentir-se excluído de uma
brincadeira ou envolver-se num episódio de agressividade não significa,
necessariamente, estar perante uma situação de bullying.
Durante muito tempo, muitas das dificuldades vividas entre
crianças foram entendidas como parte do crescimento. Havia alcunhas,
provocações, discussões, grupos que se formavam e desfaziam, amizades que
terminavam tão depressa como começavam. Algumas destas experiências eram
ultrapassadas com relativa facilidade. Outras deixavam marcas que nem sempre
eram reconhecidas pelos adultos.
Hoje, felizmente, estamos mais atentos ao sofrimento das
crianças e dos adolescentes. Falamos mais sobre violência entre pares,
exclusão, humilhação e bullying. E ainda bem que assim é.
Mas será que, ao procurarmos reconhecer melhor estas
situações, não estaremos também a perder alguma capacidade para as distinguir?
A palavra bullying passou a fazer parte do vocabulário
quotidiano. Ouvimo-la nas escolas, nas conversas entre pais e, cada vez mais,
nas próprias crianças, que a utilizam para descrever experiências relacionais
desagradáveis.
O problema não está em falarmos de bullying. Está em
utilizarmos a palavra para situações que podem ter naturezas muito diferentes.
Na literatura científica, o bullying não corresponde a
qualquer conflito ou episódio de agressividade. Pressupõe comportamentos
agressivos intencionais, repetidos ao longo do tempo, numa relação em que
existe um desequilíbrio de poder.
E este último aspeto é particularmente importante.
Não se trata apenas de uma criança ser fisicamente mais
forte do que outra. O poder também se manifesta na posição que ocupa no grupo,
na popularidade, na influência que exerce sobre os colegas ou na capacidade de
isolar alguém.
É diferente discutir com um colega e, no dia seguinte,
voltarem a brincar juntos, ou ser repetidamente alvo de humilhações, sem
conseguir defender-se ou interromper aquilo que está a acontecer.
Também é diferente não ser convidado para uma festa de
aniversário ou ser sistematicamente excluído das atividades do grupo com a
intenção de magoar.
A diferença não está necessariamente na intensidade do
sofrimento sentido, mas na natureza daquilo que está a acontecer.
E os números mostram que o bullying está longe de ser um
problema menor.
Segundo o PISA 2022, em Portugal, 15% das raparigas e 13%
dos rapazes referiram ter sido vítimas de comportamentos de bullying pelo menos
algumas vezes por mês. Já o relatório internacional HBSC, divulgado pela
Organização Mundial da Saúde em 2024, identificou cerca de 11% de adolescentes
vítimas de bullying escolar e 15% de cyberbullying, entre os países e regiões
estudados.
São números que justificam a nossa atenção. Mas também
justificam rigor na forma como identificamos e compreendemos o fenómeno.
As relações entre crianças e adolescentes não são
permanentemente harmoniosas. Há rivalidades, ciúmes, desentendimentos,
rejeições e frustrações. Fazem parte da experiência de viver com os outros e
constituem oportunidades importantes de aprendizagem social e emocional.
Isto não significa que devam ser ignoradas ou que as
crianças tenham de resolver tudo sozinhas.
Significa que nem todas exigem a mesma resposta.
Perante um conflito entre colegas, poderá ser importante
ajudá-los a compreender o que aconteceu, a reconhecer o ponto de vista do
outro, a lidar com a frustração e a encontrar formas de resolver o desacordo.
Perante uma situação de bullying, a prioridade é outra. É
necessário interromper a agressão, proteger quem está a ser vítima e envolver
os adultos responsáveis. Não podemos esperar que uma criança resolva, através
do diálogo, uma relação em que não dispõe das mesmas condições de poder.
É aqui que a distinção se torna mais importante.
Se classificarmos todas as experiências desagradáveis como
bullying, arriscamo-nos a perder de vista aquilo que torna este fenómeno
particularmente grave. Mas, se considerarmos que tudo faz parte do crescimento,
podemos deixar crianças entregues a situações de sofrimento difícil de
quantificar e que exigem intervenção.
Entre estes dois extremos existe uma responsabilidade que é
dos adultos: escutar antes de classificar, compreender antes de concluir e
intervir de acordo com aquilo que realmente está a acontecer.
Não precisamos de chamar bullying a todas as situações para
reconhecer que uma criança está a sofrer.
E não precisamos de esperar que uma situação preencha todos
os critérios de bullying para levar esse sofrimento a sério.
Não sei o que sentiria verdadeiramente o Caixa de Óculos
quando o chamavam assim, nem se o Badocha por causa desta alcunha pensava três
vezes antes de avançar para um chocolate. Sei que tinham amigos, que brincavam
e que faziam parte do grupo. Tal como sei que detestava ser a última a ser
escolhida nas aulas de Educação Física. Mas também sei que crescer implica
aprender a lidar com aquilo de que não gostamos.
E isso também é da vida!
Referências bibliográficas
- OCDE
(2023). PISA 2022 Results: Country Note — Portugal.
- World Health Organization
Regional Office for Europe (2024). A focus on adolescent peer violence
and bullying in Europe, central Asia and Canada. HBSC
International Report, Volume 2.
- UNESCO (2023). Defining
school bullying and its implications on education, teachers and learners.
- Wilson et al. (2023). The
longitudinal course of childhood bullying victimization and associations
with self-injurious thoughts and behaviors in children and young people: A
systematic review of the literature. Journal of Adolescence.

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