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20 outubro 2026

distinguir é valorizar. (isto é sobre bullying)


 20 de outubro | Dia de Combate ao Bullying


Lembro-me de andar na escola e de, em todos os grupos, haver o Caixa de Óculos (apesar de vários usarem óculos), o Badocha, o Dentolas, o Marrão, o Orelhas de Abano, o Chorinhas, enfim…

Certo é que o Caixa de Óculos tinha amigos, o Badocha era convidado para as festas de anos, o Dentolas nunca tinha problemas em encontrar um grupo para os trabalhos e por aí fora.

A mim acontecia-me ser sempre a última a ser escolhida nas aulas de Educação Física. Verdade seja dita, nunca tive grande jeito com as mãos e muito menos com os pés. Se eu gostava? Odiava, mas era a vida! Em pliés ninguém me ganhava, mas isso não fazia parte do programa.

Andar na escola sempre foi difícil. É lá que se treina toda a organização social fora da proteção familiar.

Dito isto, discutir com um colega, sentir-se excluído de uma brincadeira ou envolver-se num episódio de agressividade não significa, necessariamente, estar perante uma situação de bullying.

Durante muito tempo, muitas das dificuldades vividas entre crianças foram entendidas como parte do crescimento. Havia alcunhas, provocações, discussões, grupos que se formavam e desfaziam, amizades que terminavam tão depressa como começavam. Algumas destas experiências eram ultrapassadas com relativa facilidade. Outras deixavam marcas que nem sempre eram reconhecidas pelos adultos.

Hoje, felizmente, estamos mais atentos ao sofrimento das crianças e dos adolescentes. Falamos mais sobre violência entre pares, exclusão, humilhação e bullying. E ainda bem que assim é.

Mas será que, ao procurarmos reconhecer melhor estas situações, não estaremos também a perder alguma capacidade para as distinguir?

A palavra bullying passou a fazer parte do vocabulário quotidiano. Ouvimo-la nas escolas, nas conversas entre pais e, cada vez mais, nas próprias crianças, que a utilizam para descrever experiências relacionais desagradáveis.

O problema não está em falarmos de bullying. Está em utilizarmos a palavra para situações que podem ter naturezas muito diferentes.

Na literatura científica, o bullying não corresponde a qualquer conflito ou episódio de agressividade. Pressupõe comportamentos agressivos intencionais, repetidos ao longo do tempo, numa relação em que existe um desequilíbrio de poder.

E este último aspeto é particularmente importante.

Não se trata apenas de uma criança ser fisicamente mais forte do que outra. O poder também se manifesta na posição que ocupa no grupo, na popularidade, na influência que exerce sobre os colegas ou na capacidade de isolar alguém.

É diferente discutir com um colega e, no dia seguinte, voltarem a brincar juntos, ou ser repetidamente alvo de humilhações, sem conseguir defender-se ou interromper aquilo que está a acontecer.

Também é diferente não ser convidado para uma festa de aniversário ou ser sistematicamente excluído das atividades do grupo com a intenção de magoar.

A diferença não está necessariamente na intensidade do sofrimento sentido, mas na natureza daquilo que está a acontecer.

E os números mostram que o bullying está longe de ser um problema menor.

Segundo o PISA 2022, em Portugal, 15% das raparigas e 13% dos rapazes referiram ter sido vítimas de comportamentos de bullying pelo menos algumas vezes por mês. Já o relatório internacional HBSC, divulgado pela Organização Mundial da Saúde em 2024, identificou cerca de 11% de adolescentes vítimas de bullying escolar e 15% de cyberbullying, entre os países e regiões estudados.

São números que justificam a nossa atenção. Mas também justificam rigor na forma como identificamos e compreendemos o fenómeno.

As relações entre crianças e adolescentes não são permanentemente harmoniosas. Há rivalidades, ciúmes, desentendimentos, rejeições e frustrações. Fazem parte da experiência de viver com os outros e constituem oportunidades importantes de aprendizagem social e emocional.

Isto não significa que devam ser ignoradas ou que as crianças tenham de resolver tudo sozinhas.

Significa que nem todas exigem a mesma resposta.

Perante um conflito entre colegas, poderá ser importante ajudá-los a compreender o que aconteceu, a reconhecer o ponto de vista do outro, a lidar com a frustração e a encontrar formas de resolver o desacordo.

Perante uma situação de bullying, a prioridade é outra. É necessário interromper a agressão, proteger quem está a ser vítima e envolver os adultos responsáveis. Não podemos esperar que uma criança resolva, através do diálogo, uma relação em que não dispõe das mesmas condições de poder.

É aqui que a distinção se torna mais importante.

Se classificarmos todas as experiências desagradáveis como bullying, arriscamo-nos a perder de vista aquilo que torna este fenómeno particularmente grave. Mas, se considerarmos que tudo faz parte do crescimento, podemos deixar crianças entregues a situações de sofrimento difícil de quantificar e que exigem intervenção.

Entre estes dois extremos existe uma responsabilidade que é dos adultos: escutar antes de classificar, compreender antes de concluir e intervir de acordo com aquilo que realmente está a acontecer.

Não precisamos de chamar bullying a todas as situações para reconhecer que uma criança está a sofrer.

E não precisamos de esperar que uma situação preencha todos os critérios de bullying para levar esse sofrimento a sério.

Não sei o que sentiria verdadeiramente o Caixa de Óculos quando o chamavam assim, nem se o Badocha por causa desta alcunha pensava três vezes antes de avançar para um chocolate. Sei que tinham amigos, que brincavam e que faziam parte do grupo. Tal como sei que detestava ser a última a ser escolhida nas aulas de Educação Física. Mas também sei que crescer implica aprender a lidar com aquilo de que não gostamos.

E isso também é da vida!


Referências bibliográficas

  • OCDE (2023). PISA 2022 Results: Country Note — Portugal.
  • World Health Organization Regional Office for Europe (2024). A focus on adolescent peer violence and bullying in Europe, central Asia and Canada. HBSC International Report, Volume 2.
  • UNESCO (2023). Defining school bullying and its implications on education, teachers and learners.
  • Wilson et al. (2023). The longitudinal course of childhood bullying victimization and associations with self-injurious thoughts and behaviors in children and young people: A systematic review of the literature. Journal of Adolescence.